GUEST POST: NUNCA MAIS

Postado por Unknown | 19:56

R.



Tudo comecou na metade de 2006, eu tinha 19 anos. Era uma menina na 3a fase de direito, querendo mudar o mundo. E comecei a fazer estágio numa empresa pública aqui de Santa Catarina, na área do apoio dos advogados. Meu trabalho era arquivar o que eles faziam. Primeiro no computador e depois numa sala adjunta que mais parecia uma galpão, porque não tinha janelas nem nada.

A sala tinha seis pessoas, eu era a única mulher. A minha mesa era praticamente colada à de um homem, vamos chamá-lo de F. Ele tinha mais de 30 anos, e adorava dizer em voz alta que fazia o "mínimo que precisava porque era funcionário público e não podia ser demitido mesmo". Então ele comecou a passar os trabalhos dele pra mim. TODO O TRABALHO. Eu tinha que fazer o meu como única estagiária, e ainda fazer o dele que era catalogar um processo inteiro no sistema. E aí o problema mais sério começa.

Porque enquanto eu fazia tudo isso, sabe o que ele fazia? Lembrando que nossas mesas eram extramamente coladas. A distância dos nossos computadores era menos de duas mãos. Ele ficava assistindo PORNÔ. Pornô bem proibidão ainda, à tarde toda, de segunda à sexta. Eu aturei isso por dois anos. Não tinha provas pra falar pra ninguém. Precisava do dinheiro do estágio. E na época, infelizmente, não consegui outro em nenhum lugar.

Eu cheguei a ficar traumatizada. Na época, cheguei até a ficar por um tempinho com nojo de sexo com meu então namorado, atual marido, porque aquilo não era só pornô. Era pornô hardcore, daqueles que envolvem cenas de estupro. Era horrível. E eu não podia fazer nada.

Um dia eu educamente pedir pra ele parar. Falei que me incomodava. Sabe o que ele fez? Ficou quieto. Esperou eu ir no tal galpão guardar documentos. Eu sempre ia sozinha. E daí ele foi lá e disse pra eu ficar bem quieta, porque ele conhecia muita gente, e que eu obviamente não queria coisas ruins acontecendo comigo. Eu chorava quase todo dia.

Até hoje carrego muito trauma desse assédio que sofri, que nem sei que nome se dá: assédio moral? Sexual? Eu não sei. Eu sei que não foi certo. Eu sei que eu não pude fazer nada. Eu sei que ele continua trabalhando lá provalvemente traumatizando psicologiamente outra estagiária, e ninguém pode fazer nada.

Porque vivemos nesse mundo que mulher ainda não vale nada. Vive sendo assediada, estuprada, violentada, machucada pelos próprios parceiros. Sensação de impotência. Ainda hoje. Mesmo 6 anos depois (já que saí em 2008). Desde que saí faço terapia, que ajuda bastante. Escrever no meu blog (escrevoporcomida.wordpress.) ajuda também. Lá discuto esses assuntos e ajudo outras garotas. Mas o meu sonho é que nenhuma garota ou mulher precisasse passar pelo que eu passei. NUNCA MAIS.



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