20 ANOS DO REAL

Com o Real, renda no DF sobe 176% Setor público ajuda a puxar para cima, desde a década passada, o valor médio dos salários na unidade da Federação. Apesar disso, as diferenças sociais se acentuam devido ao fluxo migratório intenso. Prova disso é o surgimento, aqui, da maior região favelada do





ANTONIO TEMÓTEO






Os avanços e as distorções verificadas em muitas cidades brasileiras ao longo dos 20 anos de estabilidade econômica se repetem no Distrito Federal. Após a implantação do Plano Real e do controle da inflação, a renda domiciliar dos brasilienses mais que dobrou (176,2%). Passou de R$ 1.679,95 para R$ 4.640,86. Apenas na cidade do Paranoá, onde o peso do salário mínimo é determinante para o poder de compra da população, esse avanço foi ainda maior: 308%, de R$ 119,48 para R$ 487,55.



Mas as contradições no centro do poder não param por aí. Ao lado da capital planejada, Brasília, na qual 90% dos domicílios estão ligados à rede de esgoto, está a maior favela do país, que não para de crescer. Os condomínios Pôr do Sol e Sol Nascente, em Ceilândia, reúnem 78.912 moradores, conforme dados da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), desbancando o total de 69.161 da internacionalmente famosa Rocinha, no Rio de Janeiro. No Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as duas comunidades somavam 56.483 pessoas.



O levantamento do órgão distrital também mostrou que elas têm os piores indicadores de infraestrutura da unidade da Federação. Só 6,1% das residências são atendidas pelo saneamento básico, os caminhões de lixo passam por 54,15% dos domicílios e 94% das ruas não são pavimentadas. Além disso, o número de assassinatos no DF quase triplicou no Real. Em 1994, foram 284 casos; no ano passado, 692; e, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, 287.



Na avaliação do presidente da Codeplan, Júlio Miragaya, parte dessas contradições pode ser explicada pelo intenso fluxo migratório. Nos últimos 20 anos, a população brasileira cresceu 34%, enquanto que no DF o número saltou 63%, de 1,75 milhão de habitantes para 2,85 milhões. Para piorar, após o processo de modernização das indústrias no rastro do Real, muitos trabalhadores perderam o emprego e foram seduzidos pela visão de Brasília como terra de oportunidades.



Fator renda

Ele ainda ressalta que boa parte desses imigrantes acabaram atraídos pelo indicador de alto poder aquisitivo da população. “Essas pessoas vieram para ocupar postos de trabalho no setor de serviços, empregos domésticos e no comércio. Havia uma demanda por esse tipo de mão de obra, mas nem todo mundo conseguiu vaga”, afirma Miragaya. A concentração de renda em Brasília, acrescenta, contribuiu para agravar as desigualdades. No DF, só 22% do pessoal ocupado trabalha na administração pública, que paga os melhores salários. Comércio e serviços, por sua vez, concentram 71% dos assalariados.



“Isso explica por que temos a segunda pior distribuição de renda do Brasil. A dependência da administração pública atrofia o crescimento da economia do DF. Não à toa temos um setor industrial pequeno, que não consegue se expandir”, completa.



O economista da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli explica que o aumento da renda no DF foi impulsionado a partir de governo Lula. Ele argumenta que, durante a gestão FHC, houve congelamento de reajustes salariais aos servidores públicos e, somente quando o PT chegou ao poder, foram dados aumentos nos contracheques. “A melhora salarial foi possível após o controle da inflação conquistado pelo Real. Mas não significa que o plano econômico é culpado pela desigualdade”, destaca.

Na opinião de Piscitelli, a culpa está na estrutura produtiva local, com forte dependência econômica do setor de serviços e um peso significativo da administração pública. “Brasília concentra toda a estrutura do poder público, com muitos empregados que ganham bem. Por outro lado, no segmento de serviços, os salários são menores”, completa.



Progressos

Apesar das desigualdades em tempos de real, a vida de muitos moradores do DF sofreu grandes transformações. O violinista e professor da Escola de Música de Brasília João Rochael, 55 anos, lembra que passava dificuldades antes de 1994. Morava de aluguel, tinha só um instrumento, comprado em período de crise, e acalentava o sonho de ter uma máquina fotográfica.



A estabilização da economia e dos preços lhe permitiu planejar gastos, poupar e, após passar no concurso para lecionar, se sentiu confortável para realizar outro sonho: constituir uma família. Ele, a mulher Cleide, 32, e os filhos Isabel, 12, Nina, 4 e Rodrigo, 4, passaram a viajar todos os anos, fazer compras de supermercado semanalmente e adquiriram um piano e violinos para os filhos.



O músico também conseguiu comprar a tão sonhada máquina fotográfica e torce para que a prole não passe as mesmas dificuldades pré-real. “A vida está bem melhor. Meu único temor é a violência, que aumentou bastante em Brasília. Tenho muito receio de deixar meus filhos brincarem na rua e evito sair de casa”, revela.



A servidora pública Regina Cerqueira, 49, também lembra o quanto era difícil sobreviver antes da moeda forte. “Éramos achatados pela inflação. Gasolina subia todo dia, um carro novo valia um ágio de apartamento. Alimentação era só o básico, nada de supérfluos. Os remédios eram todos caros e não havia a opção dos genéricos”, conta.



A maior preocupação dela hoje é justamente a volta da inflação. A filha, Zhaddi de Cerqueira, 21, tenta fugir da carestia comprando no exterior. Para ela, compensa mais economizar ao longo do ano e gastar lá fora. “Roupas, equipamentos fotográficos, comida fora de casa. Tudo custa muito. Não vivi o período da inflação alta, mas percebo que isso pode voltar.”




Fonte: Reportagem do jornal Correio Braziliense, por Antonio Temóteo. O economista da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli explica que o aumento da renda no DF foi impulsionado a partir de governo Lula. Ele argumenta que, durante a gestão FHC, houve congelamento de reajustes salariais aos servidores públicos e, somente quando o PT chegou ao poder, foram dados aumentos nos contracheques. “A melhora salarial foi possível após o controle da inflação conquistado pelo Real. Mas não significa que o plano econômico é culpado pela desigualdade”, destaca.»

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