Tiros da Globo saem pela culatra



Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:





A Petrobrás teve sorte. Como o leitor já sabe pelo post de ontem, o Globo teve acesso a documentos confidenciais da Petrobrás sobre a refinaria de Pasadena. O máximo que encontraram foi um saque de US$ 10 milhões de uma corretora ligada à refinaria. A Petrobrás já explicou o saque, em seu blog, que começa a apresentar tímidos sinais de vida. O saque foi normal.



Ao mesmo tempo, a matéria de ontem do Globo, cujo objetivo era apenas detonar a Petrobrás, dá uma informação, no meio da matéria, sem destaque, que é a grande novidade para nós, brasileiros: o faturamento da refinaria apenas em 8 meses de 2010, janeiro a agosto, foi de US$ 2,2 bilhões, ou seja, quase ou mais que R$ 5 bilhões!






Esses números nos permitem ter uma visão completamente diferente de Pasadena. No início, quando estourou o escândalo, não sabíamos de nada. A imprensa dizia que era uma sucata. Nas redes, se dizia que estava paralisada há anos. É incrível o show de desinformação que a Petrobrás deixou rolar. Com o tempo, fomos descobrindo que a refinaria estava operante. Depois chegou a informação que ela dava lucro. E agora sabemos que o faturamento dela pode ser superior a R$ 10 bilhões.



E estamos descobrindo tudo isso por conta de investigações particulares na internet e, agora, através de um vazamento clandestino para o Globo! É inacreditável que a Petrobrás não tenha, em nenhum momento, procurado esclarecer a população com números, nem que fossem meras estimativas e projeções, sobre a performance de Pasadena!



Francamente, eu acho que isso foi mais que incompetência na área de comunicação. Graça Foster agiu com maldade! A gente queria apenas informação! Ela não deu nem uma migalha! E até hoje, nada! Deu alguns números para senadores da oposição e não deu à sociedade. E agora vaza documentos para a Globo… Ou seja, mais uma vez, a Petrobrás alimentando seus próprios inimigos e prejudicando aqueles que a defendem.



É incrível, de qualquer forma, o poder do blog da Petrobrás. Ainda está feio, com fontes pequenas que mal dão para ler, sem graça, os posts são tímidos, com pouca informação, mas apenas o fato de responder à imprensa já ajuda a esfriar a crise. E ainda permite à estatal economizar alguns milhões, já que publicar no blog é uma operação gratuita, ao contrário da publicação em jornal, revista e tv.



Só que a Petrobrás deveria melhorar ainda muito o desempenho do blog, e fazer anúncios em jornais, revistas e TV para que as pessoas acessem o seu conteúdo. Tipo assim: “saiba a verdade sobre a Petrobrás. Cuidado com o que você lê na imprensa porque há uma disputa política em jogo. Leia o blog.” A quantidade de curtidas nos posts nos permitem ver que a Petrobrás continua perdendo, feio, a disputa da opinião pública. Isso dói no coração, porque se nós, blogueiros sujos e duros, conseguimos fazer cócegas nos pés do império midiático, a ponto de sermos xingados a toda hora em seus editoriais, a Petrobrás teria condições de dar um murro direto na cara deles. Seria lindo de se ver!



A Petrobrás tem agido apenas na defensiva, como se fosse fraca, como se tivesse medo.



Qual o grande feito da gestão tucana na Petrobrás? Vender quase metade da companhia para acionistas de Nova York, destruir a indústria naval e afundar a maior plataforma do mundo? Quais os feitos da gestão petista? Levantar a Petrobrás, encontrar as maiores reservas da nossa história, iniciar a construção de refinarias gigantes, reerguer a indústria naval!



E, com tudo isso, a imprensa tem sucesso em vender à opinião pública a ideia de que o PT está “destruindo” a Petrobrás?



Como assim?



Uma leitora me lembrou ainda que não podemos esquecer que a Petrobrás foi espionada pela NSA. A gente não sabe a que documentos os americanos tiveram acesso, e quais deles eventualmente poderiam ser repassados para a oposição e para o Globo. Acho que, a esta altura dos conhecimentos que temos da história do Brasil e da Globo, ninguém nos chamará de loucos se suspeitarmos que a Globo é antes aliada dos EUA do que do Brasil.



Hoje o Globo volta à carga contra a Petrobrás em matéria na qual diz que “estatal sabia de problemas em Pasadena antes de comprá-la”.



Aí você vai ler a matéria. É evidente que uma auditoria séria vai encontrar problemas. Só que o Globo está destacando apenas problemas pontuais e antigos. E não dá destaque nenhum às qualidades. Na própria matéria de hoe, que fala de documento assinado por Alberto Feilhaber, ex-funcionário da Petrobrás contratado pela estatal para vistoriar Pasadena, há o seguinte trecho:



Feilhaber, no entanto, que chegou a exercer cargos de supervisor e chefe de setor na Petrobras, deu boas informações à empresa brasileira sobre Pasadena. Antes de a Petrobras decidir pela compra, os técnicos escreveram, em auditoria, que “segundo o CEO (Feilhaber), em termos de mecânica a refinaria está ‘pretty good’ (muito boa), faltando, entretanto, mais instrumentação e controle.”



Ou seja, a mecânica da refinaria era “pretty good”! Muito boa! Ora, se a Petrobrás tivesse vazado esse relatório para o Cafezinho, em vez de para a imprensa inimiga, as manchetes que poderíamos formular, muito mais bombásticas e muito mais verdadeiras seriam:



“Pasadena faturou R$ 5 bilhões em 8 meses em 2010″.



“Auditoria feita antes da compra informou que mecânica de Pasadena era ‘muito boa’ ”



Eu sou um analista atento a detalhes. O Globo online costuma ser mais sensacionalista que o Globo impresso. O título da matéria no impresso fala em “problemas”. No Online fala em “graves problemas”.



A fragilidade da imprensa é que ela não está preocupada com a verdade. Quer detonar Pasadena de qualquer jeito, mesmo que a refinaria se revele um ativo importante.



Agora, voltemos às críticas ao blog da Petrobrás. Ele publicou um post com 10 perguntas e respostas sobre Pasadena. A iniciativa é ótima, e o post circulou um pouco mais que os outros, embora ainda de maneira medíocre para um assunto tão quente. Apenas 447 curtidas.



Só que as respostas são insuficientes. E, ao menos uma delas, traz a marca tecnicista e vulgar de Graça Foster.



“4 – Afinal, a compra foi um bom ou um mau negócio?



Na época da compra, o negócio era muito vantajoso para a Petrobras, considerando as altas margens de refino vigentes e a oportunidade de processar o petróleo pesado do campo de Marlim no exterior e transformá-lo em derivados (produtos de maior valor agregado) para venda no mercado americano.



Posteriormente, houve diversas alterações no cenário econômico e do mercado de petróleo, tanto brasileiro quanto mundial. A crise econômica de 2008 levou à redução do consumo de derivados e, consequentemente, à queda das margens de refino. Além disso, houve a descoberta do pré-sal, anunciada em 2007. Assim, o negócio originalmente concebido transformou-se em um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido.”



Baixo retorno sobre o capital investido? Com todo o respeito, é a resposta mais idiota que já vi na vida. Ninguém compra uma refinaria pensando em “alto retorno” no dia seguinte. Refinaria é indústria de base e deve-se diluir o investimento ao longo de ao menos 50 anos de operação. Um especulador talvez invista numa refinaria pensando em alto retorno. Uma estatal como a Petrobrás compra uma refinaria pensando em aumentar a segurança energética do Brasil e aumentar o capital tecnológico da empresa.



Do momento da compra para 2008 ou 2009, houve mudança de cenário, sim. Mas para melhor! O Brasil descobriu o pré-sal! Graça Foster está conseguindo a proeza inacreditável de transformar a descoberta de umas maiores reservas de petróleo do mundo num fato negativo que converteu Pasadena em “mau negócio”!



Por acaso, alguma refinaria em construção da Petrobrás oferece algum “retorno”, baixo ou alto? Não. Abreu Lima, Comperj, processam uma gota de petróleo? Não. Pasadena processa 100 mil barris por dia. Então, por favor, revejam seu linguajar ao falar de Pasadena.



Quando um país constrói uma usina nuclear, ou levanta uma hidrelétrica, o que pensa em primeiro lugar: se é um investimento de alto ou baixo retorno contábil, ou se vai aumentar a segurança energética de sua economia?



A Petrobrás está construindo grandes refinarias no país, mas nenhuma ainda está pronta. As importações de derivados de petróleo correspondem a 20% de nossas importações, e tem sido as grandes responsáveis pela queda no superávit da nossa balança comercial. O Brasil ainda depende de gasolina importada. Com Pasadena, o processamento de petróleo da Petrobrás no exterior dobrou de tamanho. Como assim aumentar a segurança energética do Brasil não é um bom negócio?



A expressão “baixo retorno do capital investido” não faz sentido em se tratando de uma refinaria que, segundo a própria Foster, lucrou quase US$ 60 milhões no primeiro bimestre. Mesmo considerando apenas tecnica ou contabilmente, é uma bobagem, portanto, falar em “baixo retorno”. Quer alto retorno? Invista em “telefree”, “bitcoin” ou qualquer modinha da internet. Do ponto-de-vista estratégico é uma afirmação idiota. Politicamente, é a afirmação de um suicida louco.



Se a presidência de qualquer grande empresa jamais pode deixar de ser política, por razões econômicas e estratégicas, a gestão da Petrobrás tem responsabilidades ainda mais que políticas. Tem responsabilidades geopolíticas, ligadas à soberania do Brasil e da América Latina. Esquecer isso, em nome de um tecnicismo vulgar, é trair os ideais que nortearam a criação da Petrobrás.


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Como é trabalhar na detestada Globo?












Bete foi expulsa de um protesto na Maré



Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:



Fico aqui me perguntando se já não é hora de a Globo incluir um adicional psicológico para seus jornalistas que saem às ruas.



Isso me ocorreu depois de ver o desconcertante esculacho a que foi submetida a jornalista Bete Lucchese quando fazia uma reportagem sobre um protesto no Rio.



Alguém filmou a cena, e ela rapidamente se espalhou pela internet. Demos o vídeo no DCM, e é uma das coisas mais lidas hoje no site.



Bete tem um problema técnico, e se irrita com a equipe que a filma. Tudo normal. A surpresa foi a reação de um passante. Ele passou uma descompostura em Bete que, pelo sucesso instantâneo do vídeo, reflete o espírito de muitos, muitos brasileiros.



Uma das coisas que ele disse foi: “Vai trabalhar em outro lugar.”



Não é, evidentemente, uma coisa simples. O mercado, para a mídia tradicional, não está nada aquecido. As audiências minguam e, com elas, vão minguando os orçamentos, e o próximo passo é o encolhimento da receita publicitária.



Bete recebeu estoicamente a bofetada moral, e é preciso elogiá-la por isso.



Ela poderia ter respondido, candidamente: “Ótimo. Onde vou trabalhar, então? Na Rede Manchete? Ou você paga as minhas contas?”



O episódio é revelador de uma mudança notável na mentalidade brasileira. Não muito tempo atrás, trabalhar na Globo era motivo de orgulho. Hoje, é um embaraço – e não raro um risco, em situações emocionais como protestos.



Como ficam os jornalistas da casa?



Não é muito simples trabalhar numa empresa que é amplamente detestada. Todos sonhamos em trabalhar em lugares admirados, em que tenhamos a oportunidade de fazer coisas pelo bem público.



Mas e trabalhar num lugar abominado, como é?



Numa reunião social, pode ser um constrangimento. Na rua, como se viu agora com Bete, um pesadelo.



Mesmo repórteres prestigiados como Caco Barcellos foram intensamente hostilizados nos últimos meses, na cobertura de manifestações de protesto.



A sociedade parece cansada de muitas coisas, mas a Globo parece representar um ponto de exaustão. É como se ela fosse o símbolo supremo do atraso nacional, uma espécie de Bastilha que retarda movimentos para tornar menos desigual o Brasil.



Vistas as coisas em retrospectiva, junho de 2013 mudou o Brasil – e para melhor. A sociedade disse chega para a monstruosa exclusão que nos marca.



O Brasil teve um choque de realidade. Acordamos, por exemplo, para a dura realidade de que somos absurdamente racistas.



A última capa da revista Trip diz o seguinte: “Ser preto no Brasil é fxxx!”



Não muito tempo atrás, Ali Kamel, da Globo, escreveu um livro ufanista chamado “Não Somos Racistas”.



Hoje, uma tese destas não poderia ser defendida sem que o autor caísse em profundo e generalizado escárnio. Amarildo, Claudia, Douglas – negros, sempre negros as vítimas da violência policial.



Por precaução, os jornalistas da Globo chegaram a trabalhar sem o logotipo da casa nos microfones, nos protestos.



Isso resolve para desconhecidos. Mas e quando o repórter é um Caco Barcellos? Você faz uma plástica nele?



Na raiva, muita gente toma funcionário da Globo como uma espécie de cúmplice. Isso só complica as coisas.



Não é fácil trabalhar na Globo hoje, ficou claro na desmoralização a que Bete foi submetida. E nem foi a primeira vez. Algum tempo atrás, já a puseram para correr na Maré.



Repito: a empresa deve pensar num adicional psicológico. Você tem que ser muito zen para não se deixar arrasar pela constatação de que pertence a uma organização odiada apaixonadamente.




Fonte: O ataque de fúria da repórter da Globo_+_Tiros da Globo saem pela culatra_+_Como é trabalhar na detestada Globo?»

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