'Interessa aos dois lados políticos estimular mais protestos', diz analista


A reação social causada pelos "rolezinhos" e os protestos anti-Copa despertam questionamentos quanto a se a população voltará a se mobilizar em massa neste ano - na mesma escala de junho do ano passado.

No sábado, grupos realizaram manifestações em várias cidades brasileiras para protestar contra os gastos do Mundial , em números inferiores aos do ano passado. Em São Paulo, 2,5 mil pessoas participaram de atos intitulados "Não Vai Ter Copa".



A reportagem é publica por BBC Brasil, 26-01-2014.



Após um protesto pacífico, houve confronto entre a polícia e os manifestantes, e 128 pessoas foram detidas. Um carro foi incendiado e uma viatura da polícia foi virada pelos manifestantes.

Para o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Pesquisa e Ensino de São Paulo (Insper), a classe média está mais desmobilizada agora do que no ano passado, mas para ele "em um ano eleitoral muita coisa pode virar combustível".

Além disso, diz o analista, "interessa para os dois lados (situação e oposição) estimular" a polarização social.

Eis a entrevista.

Podemos ter a mesma conjuntura de fatores para que os protestos retomem o impulso que tiveram no ano passado?

No ano passado, vimos que as manifestações foram perdendo o ímpeto até julho - um mês de férias, assim como janeiro. Isso desarticula qualquer mobilização.

Durante as aulas, os jovens estão nas ruas. Se você quer movimentar a classe média - que é quem faz as críticas à Copa -, não adianta: a classe média está desmobilizada em janeiro.

Além disso, de julho passado para cá houve o fenômeno dos black blocs, que assustou muita gente que havia apoiado a ida de seus filhos às manifestações iniciais. Isso também provocou um esvaziamento.

Claro que não há como prever, mas (no momento) não há o potencial de ocorrer (a mobilização) que pode se concretizar mais para frente.

Mas podemos esperar mais mobilizações?

Vai depender de como o processo for conduzido. A Copa é um elemento que agrega certa tensão - se dizia que ela traria um grande ganho de mobilidade urbana para as cidades-sede, que não ocorrerá, e isso traz muita frustração.

E estamos em um ano de eleição, em que há manipulação dos dois lados. A setores de oposição interessa aguçar as críticas ao governo, e a setores (governistas) interessa aguçar críticas opostas.

Uma parte do país só vê o copo meio cheio (com relação à situação socioeconômica) e está satisfeita com isso; outra parte vê o copo meio vazio e está insatisfeita. Temos hoje uma sociedade polarizada, e esses dois grupos não conseguem dialogar.

Essa tensão tende a continuar, e interessa para os dois lados estimular isso.

Como os "rolezinhos" se inserem nesse contexto?

A primeira onda de "rolezinhos" não teve protesto algum. Era mais uma balada de jovens da periferia, e em toda reunião de massas pode-se perder o controle - ao mesmo tempo, não é da natureza dos shoppings (receber um contingente tão grande de pessoas de uma vez).

À medida que os shoppings reagiram acionando a polícia e obtendo liminares na Justiça, essa atividade social passou a ser apropriada politicamente. Nesse sentido, há semelhanças com o que aconteceu no ano passado.

Manifestações sociais sem conteúdo político-partidário acabam ganhando dimensão política que inicialmente não tinham, por conta de erros em seu tratamento.

Se pode ampliar? Sim, é possível: em um ano eleitoral como este, muita coisa pode virar combustível.

Muito se falou da dispersão do foco dos manifestantes após ter-se conseguido reverter o aumento no preço das passagens do transporte público. Agora, protestos estão sendo convocados contra a Copa. Será que a Copa pode representar esse novo foco?

É o que a gente vai ver. Acho que tem muita gente simplesmente interessada em assistir à Copa, em se o Brasil vai jogar bem ou não.

Mas se 10% da população brasileira estiver indignada, isso já são 20 milhões de pessoas. Já é suficiente para um baita barulho - e é possível fazer um grande barulho mesmo com uma parte minoritária da sociedade.

Isso, aliás, leva a outra discussão, que é essa confusão sobre o que é democracia - que além de votar e exercer a liberdade de expressão, é também observar direitos e deveres. Não é apenas parar a cidade (com um protesto) porque isso é democrático. Ou seja, dá para ser bastante autoritário agindo em nome da democracia.

Desse ângulo, aprendemos pouco com os protestos do ano passado?

Um lado positivo é que eles revelaram um mal-estar social, (mostrando) que aquele clima ufanista que reinava era absolutamente sem sentido.

Os protestos mostraram que precisamos aprimorar nossa sociedade.





Fonte: POLÍTICA - Mobilizações de protesto.»

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